delírios amorosos por soror mariana alcoforado

02 novembro, 2005

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todos os dias ela sonha às escuras
que a outra mão é tua

e que a pele de pano é humana
e tem cheiro e toque humano

e que os olhos respondem, e
não são apenas os olhos dela
a olhar de fora para ela mesma,
como se a apaixonar-se por
estar apaixonada. um contra-amor
de dentro para fora, e de fora para
dentro outra vez, a ser reciclado
vezes sem conta. amassado e triste
lá dentro dela, vezes sem conta
e pensamentos com o mesmo rosto.

todos os dias ela sonha com luz
que acorda contigo num espaço
mínimo em que não cabes, só
a alimentar um sonho mau que
nunca vai acontecer e que é só
a alma egoísta a engordar com
coisas boas e sensuais. a pele
a tua, os lábios outros, a respiração
como som constante, corpos dois como
um, plena utupia lá no âmago do sentir dela.

só a enganar-se vezes sem conta e a
fingir que é pequenina e que inventa
amantes invisíveis. e é tão transparente
que até irrita, e flagelar-se com poemas
chatos é melhor que rasgar a pele.

todos os dias ela sonha com luz artificial
que um dia vai viver sem artifícios, e
os poros vão ser reais e tocar vai
ser simples e tão verdadeiro quanto
é aquilo que mente para dentro dela.


3 comentários:

  1. É o poema teu que gosto mais e, ainda assim, acho que é, apenas, um ponto de partida. A língua limpa-se e as palavras depuram-se e os poemas ficam simples concentrados e dizem exactamente o mesmo, mas sem se repetir. Não que todos os poemas tenham de ter dois versos apenas, ou seis, mas devem ser limpos, sem redundâncias desnecessárias.

    Aqui, a ideia e o conceito são bonitos, Filipa. Muito mesmo. E seriam mais perceptíveis se tivessem menos adornos. É só isso.


    todos os dias ela sonha às escuras
    que a outra mão é tua

    e que a pele de pano é humana
    e tem cheiro e toque


    (estes, e principalmente assim, sem aquele último humano, são tão, mas tão bonitos.)

    E não, não pretendo ensinar-te sobre poesia. Não a sei. Não como desejo, não como sei que saberei, um dia.

    *

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  2. não li mais nenhum post teu. o primeiro exigiu logo k deixasse o meu comentário; porque me senti sensível às tuas metáforas, porque todas as palavras soaram sinceras, como se eu mesma pressentisse as sensações que a tua lírica descreve; simplesmente porque gostei.
    achei que as palavras estavam todas elas no sítio certo, todas elas completando o sentido da anterior, construíndo um cenário assustadadoramente comum sem cair no banal.
    digno de se ler e de ser relido.

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