poema cru

23 outubro, 2006



é possível amar alguém metafisicamente? 
é possível amar sem corpo, sem objecto do amor? 
(é possível amar? és possível?) 
até partículas mortas tu amas, e nao são necessariamente carne humana, 
até partículas de estrelas, matéria antiga ou ainda para vir. 
até pedaços inteiros de mundo podes guardar no coração até apodrecerem, 
velhos, desamados. 
na minha vida, rodopio feito animal tonto, bicho viciado em não parar de ser constantemente. 
é possível amares-te sem cometeres um crime? 
é possível amar sem te repugnares todos os dias ao luar? 
é possível mentir com todos os dentes aquilo que como dentro de mim: 
as minhas próprias vísceras sem sal, eu de ontem, células minguando. 
eu diferente, eu d'hoje, eu d'amannhã. só. 
é possível ver todos os dias o objecto do amor sem gritar por dentro, sorte no futuro, azar no presente? 
é possível desejar de vez em quando morrer como pássaro no céu, na triste contemplação de mim mesma? 
é possível ser na comiseração plena de cada dia, uns mais que os outros como o coração minguante e a alma mais pequena? 
é possível ser interrogação no âmago da vida? 


 a sufragista em tempos de perguntas, filosofia das horas ou da natureza do ser

1 comentário:

  1. Un poema fermosísimo (escríboche en galego porque o portugués o falo moi mal).

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