menina crescida

08 junho, 2007

Piero Fornasetti

As meninas crescem sem saberem. Observam de tempos a tempos a alma cuidadosamente para não a rasgar, penteiam-na, limpam-na, sabem-na maior, mas guardam segredo para elas mesmas. Lá no fundem sentem a alma envelhecida, mais nobre.
A sua vontade Peter Pan de alma jovem em corpo-de-menina-grande rouba-lhes os dias à procura de defeitos na alma. São meticulosas na sua ignorância do crescer. Enquanto a alma envelhece, o corpo quer-se jovem, cuidadosamente jovem, sempre cuidado, sem perigo de denunciar infância ou velhice. A idade é um segredo guardado entre a alma e o coração; para os outros são o corpo, as virtudes da alma são a pele desse corpo e os defeitos só os vêem à meia-luz. Nos segredos pequenos dessa alma adolescente sentem o coração como bicho faminto, coisa pulsante por vida e de vida. Sabem-no delirante por bater mais, e acalmam-no, educando a sua pulsação. Comportar esse coração é tarefa difícil, um equilíbrio balançante entre as mãos e a cabeça.
Todas as partes do corpo são medidas, estudadas, equacionadas em surpresas e desafios matemáticos: medir o corpo até à profundidade, tirar as medidas de cór sem ver a alma ao espelho, um único milímetro faz a diferença da imagem que têm de si mesma a cada instante.
Quando o corpo desaponta, a alma corrige, fala a consciência por ela e desmente mentiras para si mesma. As meninas são poços de mentiras delas mesmas por corrigir, reescrevem-se todos os dias enquanto se banham e analisam as imperfeições da pele. Magras, esguias, tristes ou volumosas de medo, as meninas que crescem sopram suspiros para exalar os medos do corpo.
Ao crescer exalam perfumes de Primavera e não são mais corpo e alma, para serem cadernos de almas por escrever. Todos os dias uma nova, mais bela, mais penteada, limpa, perfumada e amadurecida. As meninas quando crescem não dão por isso. Lembram-se mais tarde que se viram crescer, através da película fina da alma, viam coisas por ser e outras já vividas.
Uma janela grande no peito ilumina-se pelas noites como estrela morta, e a alma descansa em paz, num corpo maior.


as meninas, filosofia feminina da infância
ou dos corpos crescentes

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