vinte e oito de setembro

29 setembro, 2009



fim-de-tarde com céu de juízo final. nuvens douradas, polvilhadas de luz cor-de-rosa, jorravam luz divina do armageddon sobre a praça dão joão primeiro. autocarro. sento-me de costas, maravilhada com as criaturas sentadas à minha frente, uma de cada lado, as quais me dediquei a observar copiosamente em deleito criativo. do meu lado direito, a mulher-sem-cabeça, mulher que dorme quase-morta, pálida, cabeça inclinada para trás, o peito projectado para cima como se falasse, uma ferida em forma de coração sobre o coração, do tamanho de um punhal. é a figura da morte, se isto fosse tarot. a sua barriga grávida acentua o corpo que fala, e meio-viva acorda finalmente e sai na sua paragem.

ao meu lado esquerdo a menina, boneca-de-terror. os olhos mais assustadores que já me olharam, de umas pupilas gigantes, a cobrir quase toda íris, olhava para tudo ao seu redor meticulosamente. os lábios, pequenos, vermelhos, o olhar viajante. pele pálida, boneca-de-porcelana, cabelos longos, ondulados. embalada pelos solavancos, a sua cabeça articulada dançava como os olhos vibrantes de terror. um fantasma de si mesma. na mão segurava uma fotografia antiga, um retrato de um homem. um antepassado guardado naquela alucinação. observada curiosamente por outras pessoas, olha concentrada para fotografia que tem na mão e guarda-a na pequena carteira que carrega no colo, de lá retira outra fotografia, uma polaroid, com um retrato provavelmente dela mesma, que observa obsessivamente nos próximos minutos, voltando a pousar as mãos sobre o colo, a foto na mão, como se a mostrasse aos outros. saio na paragem com a certeza de segredos só meus, e que fotografar com os olhos seria magnífico. o quotidiano é infinito em coisas de coleccionar, e por vezes, encontram-se aos pares.

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