da sensibilidade

30 março, 2012

Um texto perdido num blog antigo. Um dos textos do coração desta sufragista. Faz-me pensar em coisas diferentes todas as vezes que o leio. E é uma delícia...

Um ensaio todo a propósito desta imagem.

As notas verdes (III) 
(...) Há pessoas que estão sempre a implicar com as mulheres e fazem disso um passatempo. Há sempre um pouco de ciúme na crítica contra as mulheres. Há imensos epigramas sobre as mulheres e poucos retratos. Sobre os homens há mais retratos do que epigramas. Pensamos nisso e chegamos a uma conclusão: que as mulheres são mais originais e isso converte-as em mais anedóticas. São mais frondosas, em suma.

A mulher parece confinada ao anedotário medieval em que o sexo é um recreio de frades e de foliões. Com o acesso à instrução e à leitura, as mulheres fizeram-se espirituosas e eu creio que estiveram, por isso mesmo, na origem da Revolução Francesa. Um país de mulher espirituosas tem duas soluções: a primeira é fazer delas amigas e iguais. A segunda ninguém sabe qual é.

Homens e mulheres nunca podem ser amigos. Negoceiam entre si, mas não se compreendem; a não ser por meio de imposturas. Torna-se portanto estranho que confiem a uma mulher o retrato de um homem. Ela pintará o conflito e não qualquer forma de perplexidade. As mulheres não confiam na perplexidade, pensam logo que estão a ser enganadas. Disseram-se: “Queria que me falasse do erotismo na mulher”. E eu: — Não há erotismo, há desejo; e data de há quinhentos milhões de anos. O erotismo apareceu com a sensibilidade, com o rato, há dez milhões de anos. É relativamente moderno. Por isso é que uma mulher não pode pintar um retrato para pendurar na parede. Ele tem de ter sensibilidade. — Bom – disse o perguntador – Quinhentos milhões de anos sempre é uma vantagem!
Agustina Bessa-Luís, in Jornal de Notícias 02-04-2006

Sem comentários:

Enviar um comentário