da escolha

19 abril, 2012



Cada vez mais me convenço que qualquer iniciativa que desafie a norma das instituições em Portugal se transforma num inimigo público por parte do poder adminstrativo. Um modelo de escola que não é uma Escola, mas antes uma Es.col.a — sublinhando, graficamente, uma Es.colh.a — é algo perigoso para algumas pessoas no poder, mas também para todas as que preferem a norma das coisas, essencialmente porque põe em causa tanto as estuturas de poder como a simples acção individual e mais que tudo, a lógica hierárquica (cega) com que tudo se resolve em Portugal.

Uma Es.col.a que nasce no lugar de uma antiga Escola, e que se baseia essencialmente num sentido comunitário e anti-hierárquico contrapõe precisamente a função atual da Escola portuguesa, cada vez menos consciente de um papel comunitário in loco, e altamente hierarquizada e promotora de uma mentalidade classista. Aquilo que é fácil de fazer ver num movimento deste tipo — aos olhos de uma opinião pública influenciável, — é de um caso isolado baseado num sistema anárquico e inconsequente, com objetivos pouco claros.

O facto de um movimento de cidadãos se transformar, lentamente, numa pequena guerra social, pode ter que ver com uma enorme passividade do poder local, e principalmente, com o enraizamento da ideia de que as instituições do estado são organismos intocáveis. Numa sociedade desde há muito baseada na ignorância e na hierarquização social, e, também por isso, com uma pobre cultura de associativismo, esta história pode (e deve) ser o começo de uma mudança mais profunda.

Por um lado, uma plataforma de cidadãos, organizados segundo um modelo não tradicional, sem uma formulação instituicional com objetivos meramente sociais; do outro, uma administração local, uma instituição formal, com poderes administrativos (aparentemente) claros e objetivos essencialmente económicos. David e Golias.

É, mais que uma prova da crescente tensão social e da crise do "estado social", uma guerra primitiva sobre poder. Poder tem que ver com posse, com território. Criar um movimento de cidadãos que promove lógicas de troca e partilha social não é um motivo, mas ocupar um espaço público (no sentido em que uma escola, ao pertencer ao Estado, é um espaço público), um edifício estatal e municipal, abandonado, isso é uma questão clara de poder e motivo suficiente para um grande erro político. É cada vez mais fácil ver um desespero claro por parte da administração local na questão da gestão do património, uma vez que a tendência clara é para que as pessoas, os indivíduos e não as corporações, comecem a fazer a sua parte nessa re-ocupação.

Uma Câmara Municipal que pretende promover uma lógica de re-habitação do centro da cidade não se pode opôr a movimentos sociais com claros objetivos de coesão social, e que se predispõe espontaneamente a recuperar património público em estado de pré-abandono. Qualquer movimento/associação deste tipo deve ser encorajado numa cidade que tende, apesar dos supostos esforços para a re-habitação e reabilitação do património edificado, a perder ainda mais habitantes.

Mais que o Circo à portuguesa, sempre devidamente promovido pelas televisões e jornais, pode-se ver no que aconteceu hoje uma Es.colh.a muito clara e que personifica uma notória divisão social em Portugal: de um lado, uma crença nas instituições por passividade, dependência e conivência com um sistema político todo-poderoso e baseado numa administração centralizada; por outro, as opções individuais, ao nível do local e da comunidade, ao nível da formiga, que pretende mudar as coisas para as pessoas, de um dado sítio, e não para as empresas que ganham com uma cidade — ou um mesmo com um país — gerida(o) pelos amigos.

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