do potencial da memória

21 abril, 2012

espartilhos e cintas
À prática de privatização do espaço comum associava-se ainda a aspiração de tornar o Porto num destino de excelência de um turismo endinheirado. Para tanto, organizaram-se grandes eventos mediáticos, como o Circuito da Boavista e a sua "corrida de milionários", os aviões da Red Bull, o franchising de musicais de La Feria, a transformação do Pavilhão Rosa Mota num centro de congressos, a abertura de hotéis de luxo na Baixa e recuperação da zona com imóveis de alto preço, a implosão de bairros sociais em localizações privilegiadas para dar lugar a urbanizações luxuosas, e a transformação da zona ribeirinha em blocos de apartamentos de classe alta.(…) E, no entanto, com condições tão favoráveis, a política autárquica falhou completamente. Longe de atrair turistas endinheirados, hoje o Porto é um destino de turistas mochileiros, que fizeram multiplicar os hostels de baixo custo, dinamizaram uma vida de bares e de galerias de arte, e tornaram as ruas num espaço público de arte e eventos. Enquanto isso, as dispendiosas políticas "de lazer" e propaganda deixaram a Câmara endividada, alguns dos grandes eventos foram-se embora, o Rivoli é um escombro cultural, as casas recuperadas da Baixa continuam à espera de compradores, a população continua a abandonar a Baixa e a cidade vê-se privada de equipamentos, bens e dinâmicas próprias importantes que dificilmente recuperará no futuro. aqui
Neste momento, é importante ganhar consciência de uma cidade cada vez mais pensada para ricos e outra para pobres: uma cidade muralhada, para as elites e não para usufruto público, que é cada vez mais claro em tantos casos como a destruição patrimonial operada pela Porto Vivo, a "violação" e abandono do Rivoli, a cedência pouco clara da Praça de Lisboa a um grupo económico por um concurso público duvidoso, culminando no caso paradigmático da escola da Fontinha. (Para não falar das políticas em relação ao Mercado do Bolhão e ao Mercado do Bom Sucesso).

Mais que políticos ou que políticas, uma cidade que quer aproveitar um surto turístico único para criar a ficção de uma cidade para gente rica é um erro demasiado grave. Se nos deixarmos levar nessa lógica perversa, de que é necessário criar elites para alimentar a cidade, vamos acabar por perdê-la por completo. Uma cidade que nunca foi de elites, mas sempre iminentemente burguesa, não pode deixar-se enganar com novos riquismos.

E isto tudo é o mesmo que dizer: "Não a deixem ser saqueada." Porque pior que perder os espaços e edifícios que a compõem é perder a sua memória.

Ao ser lentamente destruído o seu carácter único, feito de imperfeições, a cidade vai ser transformada numa outra cidade, mais artificial, mais das empresas e menos das pessoas. Cada vez mais longe de uma raíz comum, as pessoas vão deixar a cidade e uma cidade sem pessoas deixará de fazer sentido e certamente deixará de ser a mesma.
O fenómeno de descaracterização operado pelas autoridades envolvidas nos processos de reabilitação urbana, é traduzido desta forma por David Knight: “as autoridades, desesperadas por limpar o centro histórico, vão destruir muito do seu carácter, perdendo assim um entorno urbano único nesse processo.” página 50, aqui.

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