turismus

29 maio, 2015

horizonte #vscocam #santaapolonia #tejo #lisboa #um365

A propósito deste desabafo — aquilo que parece ser o encortiçamento do turismo nacional, com muito paternalismo à mistura — fico desolada com o estado a que chegou uma cidade como Lisboa. 
De como a descaracterização típica de uma cidade-de-ninguém (com pouco sentimento de pertença: quem é de lá não mora lá, etc.) pode fazer tanto dano à cultura — no seu sentido mais abrangente — de um país. Fica a ideia, tão falsa quanto tentadora, de enfiar várias coisas portuguesas (portuguese stuff) pela goela abaixo do turista, junto com um golinho de ginja no Rossio. É o turismo-desenrasca. Que o turismo oficial tão bem comprou, com a mesma avidez de um tasqueiro oportunista.

Este artigo, que data de há um ano — quando eu ainda morava lá — mostra como varrer portugueses de Alfama não só vai ser fácil, como já está a acontecer. A experiência deprimente de passear nas ruas semi-desertas de Alfama e ser convidada a jantar em inglês por meia-dúzia de donos de restaurante ilustra bem as coisas. O bairro não está deserto, nem está habitado, e parece que sobram os deslocados, os muito pobres e os que exploram os turistas. Os portugueses que trabalham (os poucos que ainda o fazem) vivem do outro lado do rio ou a vários quilómetros de distância do Tejo. A vida ribeirinha de Lisboa é uma tristeza: repetir o percurso Santa Apolónia-Alcântara diariamente durante muitos meses é experiência suficiente para sabê-lo.

Se por um lado existe uma sensação de vida ao raiar do sol, ao final da tarde sobram os grupos de turistas queimados que rumam ao Chiado e ao Bairro Alto para a vida noturna. Os lisboetas desapareceram todos, de carro, de barco, de metro e de autocarro para outras paragens menos barulhentas e tão ou mais descaracterizadas. Sobra uma cidade meio-fantasma, nem segura, nem insegura. Mal segura, mal amanhada.

dimanche #lisboa #chiado #pracadecamoes #domingo #um365Neste turismo, o desrespeito por cada coisa — por cada rua, e por cada paisagem, por cada pastel de nata — traduz-se num profundo desprezo pela cultura local: o conhecimento do contexto, da pertença de cada coisa. O turismo massificado faz um bolo da cultura, põe tudo na mesma panela para aceleração da experiência, e pelo caminho, destrói tudo o que há de bom nos pormenores.

Acho que nem as andorinhas se safaram…

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