Memória do quotidiano

By sufragista - julho 06, 2018

© Espólio Fotográfico Português. Armazéns do Anjo (Sucursal), 1939. Passado
Durante o ano de 2011,  produzi uma dissertação de mestrado sobre o comércio tradicional do Porto — mais concretamente sobre hipóteses da sua regeneração urgente, através da valorização do seu património simbólico. Estou muito consciente da desatualização da maioria do conteúdo deste trabalho, mesmo em relação às suas conclusões, que hoje me parecem só inocentes. Mas a dose de trabalho paralelo que desenvolvi, não só para ilustrar a tese, mas para motivar toda a investigação, merece uma divulgação pública, nem que seja pela diversão do exercício a que me propus.

Não é uma novidade: contrapor imagens do início do século passado e imagens do início deste século, num "antes" e "depois" ao comparar os mesmíssimo lugares. No (centro do) Porto, esse é um exercício que dá arrepios, pela forma como a cidade manteve a sua estrutura urbana quase intacta nos últimos 200 anos. Mas isso já não é verdade no que diz respeito aos negócios da cidade. As lojas que se perderam e ganharam, estão incrivelmente documentadas nestes volumes, editados precisamente na altura em que terminava o meu projeto.

Mas não era de revivalismos, ou saudosismos que eu queria ter falado naquele trabalho: apenas de sensibilidade. E as coisas sensíveis nem sempre têm argumentos científicos. Foi dessa dificuldade, de passar de um argumento que era sensível, a um argumento que pudesse ser arguível (numa defesa de dissertação) que me desviei do objetivo que tinha para esse estudo. Felizmente atualizei-o, acabando por estudar as novas fórmulas de um novo comércio que estava a emergir na cidade. De lado ficaram uma dezenas de fotografias que documentavam esse antes e depois, de dezenas de lojas da cidade do Porto. Para mim era a documentação de uma perda; de como os símbolos de uma era haviam sido banidos, eliminados e esquecidos. A arqueologia gráfica por si só não me interessa: criar um museu daquilo que a cidade escolheu esquecer parece-me muito como um exercício de estilo. Mas criar fórmulas arquitetónicas e de design que possam integrar ou reintegrar estes símbolos na paisagem da cidade parece-me sempre um exercício muito mais rico — e tão mais difícil de imaginar.

Armazéns do Anjo, 2011. Presente


Hoje este exercício parece-me tão mais pertinente do que quando o fiz. Elaborei-o nesse ano para uma submissão ao II Encontro Nacional de Tipografia. Segundo o texto que produzi então: "Pretendeu-se materializar, por imagens, uma viajem no tempo na cidade do Porto, pelo seu comércio tradicional. Descobrir o que aconteceu a este tipo de comércio, o que aconteceu à cidade e de que forma é resgatável o potencial da memória de uma época (primeira metade do séc. XX) que marcou definitivamente o seu desenho."

Estas imagens parecem-me hoje mais interessantes, como experiência visual, pelo exercício temporal, e pela ideia como o apresentei: com a adição de uma terceira imagem que representa o futuro, na sobreposição das imagens do passado e do presente:
"No processo de análise e tratamento das imagens, pareceu-me mais interessante que a visualização lado a lado, do “antes e depois” — ou do “ontem” e “hoje” (…), a visualização  da sobreposição das duas, como se tratasse de uma dupla exposição fotográfica do passado e do presente — imagem à qual, quase instintivamente, intitulei de “futuro”. Se realmente o futuro é moldado no “hoje” quotidiano, ele deverá, à luz dos novos paradigmas da nossa era, ser pensado também com base na herança da tradição. A cidade contemporânea não deverá conter apenas a imagem de um passado renovado, mas de um presente com memória, que saiba reinterpretar-se à luz das tradições, adicionando significados à sua identidade presente."* 


Armazéns do Anjo (Sucursal). Futuro
Se bem que a utilização do termo "tradição" é um pouco dúbia em relação ao que hoje considero que seja importante nesse conceito, de forma geral este texto ainda corresponde ao objetivo inicial desta pesquisa: a busca de um argumento (visual, gráfico, mas também histórico, patrimonial e simbólico) para essa regeneração do comércio tradicional do Porto, e da própria identidade do território.

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