contágio

06 janeiro, 2006



Chove por dentro de mim
e tenho as veis alagadas,
sinto frio e água a chover por dentro.
Enquanto chove, movo-me devagar,
como nuvem, de mansinho,
para não acoradar o céu ou
despertar a tempestade humana.
Todos a chuver para dentro
como os que mordem lábios
para fora. só a esconder e
flagelar coisas poéticas cá
dentro e fazer de conta
que sofrer faz parte do jogo
e que até é bom.
Enquanto chovo para dentro,
aguaceiros constantes no sangue
aquático dos amantes,
o amor torna-se uma pedra
dura para furar com as gotas
salgadas da alma.
E lá no fundo nascem jardins,
e brotam coisas cá dentro
que só vejo quando
a chuva pára. E o dia nasce
em mim, que o sol ilumina
e há mais segredos por
dentro que por fora, babilónias
de tesouros como nunca haviam
nascido antes. Quando o dia
pára em reflexão da água e
o sangue corre para a próxima veia,
comunhão do céu em mim:
toda eu feita de lágrimas
de anjo pagão, numa
alma civil em corpo divino.

a sufragista
em tempos escassos de poesia do contágio

Sem comentários:

Enviar um comentário