Acho que tudo começou ainda na pré-escola, na infância. Fizeram uma encenação de um casamento tradicional, com as crianças vestidas como adultos, mascaradas de velhas e velhos; a mim calhou-me fazer de mãe de um dos noivos, vestida de preto, qual viúva, mas com marido: um miúdo de cinco anos com um bigode pintado na cara e uma gravata grande demais para ele, a quem disseram para me dar um beijo para a fotografia da praxe (e que praxe!). Um beijo de um miúdo na minha bochecha de criança. A humilhação que senti, e talvez essa vergonha em ter esse momento para sempre perpetuado numa fotografia, tenha talvez contribuído para a minha relação difícil com a minha imagem fotografada, ao ponto de se tornar quase uma fobia pela adolescência. Fotografarem-me em casamentos continua a ser uma experiência bizarra, como se estivesse mascarada, a representar um papel, e sempre um papel diferente. Por vezes, sou a Filipa feliz em modo casal, outras sou a Filipa recém-solteira e outras só a Filipa que não sabe bem o que está ali a fazer. Nunca participei de um casamento em que acreditasse, talvez à exceção de um, mas cuja amizade da noiva haveria de perder em pouco tempo.
A segunda memória é do momento da dança slow na colónia de férias que comecei a frequentar aos 10 anos. De dançar com miúdos mais baixos e geralmente mais pequenos que eu. De ser pedida em namoro num bilhete de papel, de cumprir zelosamente o papel de menina, de namorada. De trocar moradas, e depois, cartas inocentes, meses antes da minha primeira menstruação. Que monstruosa, esta sexualização precoce e dissimulada das crianças. Como se nunca fosse suficientemente cedo numa vida para determinar um papel de género, um determinante “biológico”. Ao serviço de quem, realmente?
Nas séries e filmes sobre relações de jovens adultos é muito comum a cena da avó ou do avô velhinho a quem o neto ou a neta apresenta uma/um namorada/namorado falso, geralmente uma/um amiga/amigo, para que morra feliz sabendo que essa geração está assim “assegurada“. Quem nos tem ensinado este truque maligno? De que só valemos enquanto seres destinados a reprodução? De que estaremos sempre incompletas sem descendentes biológicos?
Top 10 (ambicioso)
A resposta simples é: a medicina ocidental não quer saber da saúde das mulheres, e no que toca ao trabalho, já sabemos que assim é só mais uma desculpa do sistema para castigar as mulheres de prosseguirem as suas carreiras profissionais. Estes são os pilares do sistema que permitem e validam que estas doenças sejam praticamente ignoradas até há muito pouco tempo.
Aquilo que permite que isto aconteça até hoje, sabendo que há registos de endometriose desde há pelo menos 200 anos são as superstições e preconceitos culturais deste continente que se considera tão progressista culturalmente: uma normalização histórica das dores das mulheres (principalmente relacionadas com o que se passa nos seus úteros); um viés em relação à saúde feminina, sempre tornada menos relevante cientificamente e acima de tudo, sempre opaca, mal e pouco investigada e com intenção de afastar informação e ação por parte das mulheres em relação aos seus corpos, aquilo que hoje se chama de literacia de corpo; e não menos importante, uma glorificação doentia do multitasking, da super-mulher-mãe-esposa-dona-de-casa que resiste estoicamente desde os anos 80, como se esse fosse (ainda) o preço a pagar pela re-entrada no mercado de trabalho.
Não me parece uma coincidência que numa altura em que mais se discute e alerta para estas doenças que afetam o útero como a endometriose/ adnomiose, a síndrome do ovário poliquístico, entre outras doenças com relação com a fertilidade — se esteja também a assistir a uma degradação acelerada dos poucos direitos reprodutivos que as mulheres (e pessoas com útero) tinham tomados como garantidos nas sociedades europeias e norte-americanas, como resultado de décadas de luta pelo direito ao aborto médico seguro e ao planeamento familiar sem vieses moralistas.
No Tetris, como na vida
é preciso aceitar que não podemos esperar
pela peça que vai encaixar na perfeição
mas fazer com o que temos, em cada momento.
No Tetris, como na vida
sabemos que haverá peças descasadas,
muitos buracos e até enganos.
No Tetris, como na vida
temos a sensação, à medida que avança
que está tudo a andar mais depressa,
ou então somos nós que ficamos mais lentos.








