zero

08 dezembro, 2006



eu sou de frio de ferro e de fogo
ou mais de metais leves, belezas tristes
e vulgaridades das manhãs diárias.

eu sou de domingos fólcloricos
d'infâncias mortas ontem,
d'instantes curtos e efémeros
como a caligrafia das crianças
e os olhos de lágrimas enxutas.

eu sou de cal de pedra e granito
ou só do vento do meu berço,
eu sou perpetuamente das memórias
fotográficas de sorrir em choro.
brincam nas minhas mãos já crescidas
as memórias dos dias pequenos
e infantis com cheiros doces e
mães para acudir ao berço.

eu sou da nostalgia, da peninsula
como terra abençoada, da vontade
e da saudade. eu sou como ilha
alagada, rodeada de um mar que me
sustenta, me abraça como rio.

eu sou da terra seca e também
dessa húmida, nos segredos fundos
das cidades que percorri.

eu sou já um pouco do mundo e
deixo-lhe como herança pedaços
da minha alma, da minha voz
e do meu ser aureal, fundo e
menos meu. perco-me todos
os dias quando me dou ao som
do mundo, como o eco da minha
alma ao nível das àguas do mar.

piso terra sobre as águas
e sou abstracção cósmica,
pó de estrela antiga ou de
matéria ainda para vir.

olho o céu em contemplação
do tempo, sou-lhe escrava
em adoraçao diária. e sinto-me
virtualmente nada, zero
na pele do tempo.

1 comentário:

  1. "eu sou da nostalgia, da peninsula
    como terra abençoada, da vontade
    e da saudade. eu sou como ilha
    alagada, rodeada de um mar que me
    sustenta, me abraça como rio"....


    ______________que bem escrito________.


    que bom ter chegado aqui.

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