século

03 setembro, 2006

 

Beatriz da Cruz Oliveira (1874-1950) 

Na vida, é bom olharmos para trás. É sensato ver para a frente, com o passado presente. Também quando nos vemos ao espelho lembramos os que nos precederam. O sangue antigo nas veias e os olhos, as bocas, os narizes, a tez, o queixo e o olhar que roubamos aos antepassados. O meu alterego é a trisavó, menina burguesa, casada aos 18 anos com um burguês abastado, procriou oito filhos ao longo duma vida entre dois séculos. Tal como eu, passageira entre dois séculos, ela viveu no limbo do tempo, época da história humana que mais me fascina. A passagem dos séculos é, a medo, feita com uma aprensão curiosa dos homens daquilo que se segue, e talvez não seja diferente de viver no meio de um século. Somos duma raça especial, as geração entre-séculos. Eu e a trisavó conhecemo-nos algures no bolso do tempo, uma partilha de traços físicos e uma aspiração à grandeza, à construção, ao sonho dos que vêem nascer os séculos. Eu encarno a trisavó do longínquo fin de siècle no nosso mau século acabado de estrear.

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