dos hippies

06 março, 2012



A exposição mais sui generis e underground — e sinceramente, a mais interessante, em conteúdo — que vi até agora em Estocolmo, chamou-me a atenção para coisas relacionadas com as tendências. Mais do que com as tendências de consumo, com as tendências sociais deste século, que, no espaço de uma década conseguiu viajar um pouco por todas as décadas precedentes (em estilo e conteúdos culturais).

Uma exposição suburbana intitulada "A cultura hippie dos anos 70 em Farsta" dedicada a duas dúzias de fotografias dos anos 70 sobre os jovens irreverentes e hippies da época naquela localidade dos arredores de Estocolmo, aquando da inauguração do metro (a exposição estava precisamente num edifício adjacente). O metro de Estocolmo (tunelbanna), foi uma obra realizada durante as décadas de 60 e 70, e deverá ter sido uma revolução para a vida das pessoas que viviam nas imediações da cidade (pela importância que têm os transportes públicos nesta terra fria sem carros, foi certamente uma transformação importante na vida das pessoas e da cidade). Pelos conteúdos das fotografias expostas adivinha-se que os jovens também acharam imensa piada embebedarem-se nas carruagens novas do metro (coisa que hoje em dia continua a ser uma tradição nocturna).

Mas ao que interessa: no meio de todas as fotos de jovens cabeludos bêbedos e desafiadores da autoridade havia uma imagem tirada no hall da estação que mostava dois rapazes muito hippies-cabeludos a serem olhados com reprovação por um casal (pouco mais velho), mas distintamente vestido "à época": uma forma de vestir e uma pose que é absolutamente aquilo que está hoje nos blogs de tendências, nos filmes da lana del rey e nas ruas de Estocolmo: uma postura contraída, rígida, uma elegância comprometida, cabelos impecáveis, saltos e sapatos clássicos, o casaco 60's da avó. Mais que uma forma de vestir, aquela era uma forma de ser, uma forma de estar. Um conservadorismo nada inocente, um pouco como aquele que (me parece) se aproxima, e se sente.

Há cerca de dez anos que vejo a moda e as tendências da cultura de massas a viajar pelas décadas marcantes do século XX: o glamour dos anos 20 e 30, o estilo dos anos 60, a febre dos anos 80. Mas é nesse limbo entre os anos 50 e 60 que se voa agora. Basta ver o Mad Men e já agora o Howl para perceber os exercícios nostálgicos mas também como os sentimentos dessa época são semelhantes (em questões diferentes ou não) aos dos dias de hoje.

Mais interessante que o exercício estético é perceber, quase como uma capicua, a inversão das tendências: nos anos 60/70 os hippies eram uma minoria da cultura de massas; hoje em dia, os "hipsters" ou as Lanas ou os Don Drappers são uma minoria esteta da cultura de massas. E as minorias, são coisas importantes.

A ouvir também, esta entrevista deliciosa com o Vitor Belanciano, uma boa discussão sobre a gaja-do-dia, e a nostalgia da ideia de uma época, com que a música, a moda, a televisão e o cinema nos contagia.

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