O comércio e o tempo

21 abril, 2014

comércio do Porto.

Andei muito tempo a pensar em comércio. Mesmo antes de pensar sobre ele, olhava-o curiosa, nos seus grandes letreiros, nos balcões de madeira, nas embalagens de papel, nas mãos antigas e despachadas dos comerciantes da minha terra. Depois percebi que era uma coisa da “naturalidade”: o Porto é uma cidade burguesa, o burgo dos comerciantes, uma cidade de trocas comerciais desde tempos longínquos, um porto portanto. E apesar de nunca ter estado atrás de um balcão, tirado cafés ou atendido fregueses, havia um fascínio natural por balcões e cafés; por estantes de mercearias e embalagens; por ruas de montras. (Há muitos anos, numa breve mas muito completa viagem por Inglaterra — de Londres ao ponto mais norte da Escócia — o que mais me aliciou a curiosidade e os olhos foram as lojas, as infinitas lojas de chá, de produtos artesanais, de livros, de brinquedos.) 

Nesta viagem por lojas (acompanhada sempre pela mais curiosa de lojas que já conheci), descobri que o meu fascínio pelo comércio tinha que ver com o Porto mas também com os meus antepassados. Com a ideia, tão ficcional e bonita, de nos “encontramos” nos nossos antigos, partilharmos coisas em comum com eles, nem que seja um nariz. A minha curiosidade foi do meu nariz (pela árvore genealógica) até à minha trisavó que se casou com um burguês esperto que se viciou no jogo, e aí percebi então que os antepassados tinham pertencido a esse mundo que eu imaginava nos finais do século XIX (o da minha imaginação): negócios do vinho do Porto, quintas que são hoje hotéis e uma colecção de moradas no centro histórico do Porto que me fazem conhecer de onde venho. 

Depois de uma dissertação sobre o comércio tradicional e perceber o que era isso de novos conceitos de comércio, e a quê que esses “conceitos” nos levam hoje, e nos podem levar amanhã, vejo nesse futuro uma ideia muito nova de comércio que imagino fazer. E apesar do receio, e do desconhecimento, nunca pensei realmente que outra coisa fizésse mais sentido. Sei que não sou apologista da vaga de novo comércio que invadiu Lisboa e Porto, e cada vez mais as cidades médias, como Aveiro, Viseu, Coimbra, Braga… Mas reconheço que existe uma oportunidade para se gerar valor e para se construir um comércio diferente, um comércio com coisas diferentes.

O Porto viu nascer e morrer lojas nos últimos cinco anos como nunca imaginei, mas as que vão ficar para a próxima geração são as que merecem perdurar. Porque o comércio é um negócio muito duro, muito exigente e que só compensa os que se entregam a uma loja como se fosse a (sua) casa. A geração com esse tipo de pertença (a geração das lojas que eram “Casas”) está a desaparecer agora mesmo. Não falta muito para fecharem, mudarem, venderem… A história a contar depois vai ser outra. Eu estou cheia de curiosidade para a conhecer. 

Se calhar era sobre isto que queria ter escrito, uma curiosidade sobre o desconhecido, sobre o que vai acontecer, o que se vai passar. E uma curiosidade imensa sobre essa ideia de memória, de construção lenta sobre o tempo de uma identidade, uma história, um desenho, uma ideia. Essa ideia optimista (e naïf) sobre como alcançar hoje uma noção de tempo de há 100 anos, através do design de um negócio (uma empresa, uma loja) sem que fosse só uma ideia de tempo mas uma efectiva espera

Ninguém acredita que daqui a 100 anos teremos as mesmas lojas. O mais provável é serem cada vez mais lojas “pop-up”, que abrem e fecham numa estação. “Projectos” e “colaborações” que duram alguns meses. “Sites” e “apps” para usar durante uns dias. A velocidade no nosso “tempo”, hoje, deixa-nos só espaço para criar ilusões de “memória”, pelo desenho, pela fotografia, pelas palavras, pelos argumentos, até pelos nomes dos filhos que são de novo os das gerações de há 100 anos.

Aquilo que eu queria mesmo falar era sobre tempo e sobre memória, e esta aparente impossibilidade de criarmos o tempo da infância, que era lento-devagar-impossível. Que era o único que nos podia fazer ter epifanias ao abrir o baú ou a caixa dos nossos brinquedos hoje. Não há nada que mais deseje ao desenhar uma marca, ao vender um produto ou ao pensar um projeto que o efeito epifânico da nostalgia. Tão diferente do saudosismo, ou do “ó-tempo-volta-para-trás” ou da lamúria por um passado melhor que o presente: esta epifania é um suspiro com um sorriso, numa saudade consciente do tempo que passou para valorizarmos o que tivemos. Uma espécie de humildade perante a pequenez (e rapidez) da vida, que é capaz de nos mover para as coisas boas cheios de vontade de criar coisas especiais pelas quais as próximas gerações vão suspirar com orgulho. Essa ideia constante de que apequenarmo-nos no tempo nos faz melhores, mais humanos. 
Como diz o Fachada: “ninguém quer mais que ser pai babado”.


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