Armazéns dos Clérigos

By sufragista - junho 15, 2018

Há sete anos fotografei a minha cidade como nunca, calcorreei ruas, e até pedi ajuda ao meu pai para descobrir moradas. A motivação era uma dissertação de mestrado, e uma atração desmedida pelo Porto que descobri no arquivo do Espólio Fotográfico Português — coleção que até então desconhecia.
(Mais tarde percebi tratar-se de uma coleção privada de milhares de imagens do Porto e do Norte de Portugal, que pertence à famosa empresa Douro Azul. Foi aliás aos escritórios dessa empresa que me dirigi para levantar um CD-rom que me foi cedido com as imagens que pretendia, com resolução original e sem marca de água — uma vez que se tratava de um projeto académico.) Através do site, que é de consulta pública, descobri centenas de imagens de frentes e interiores de dezenas de lojas do século passado, em locais ainda tão familiares: alguns por onde passava todos os dias. Até redesenhei alguns desses letreiros, que incluí num cartaz submetido ao II Encontro Nacional de Tipografia.

Nessa altura estava longe de imaginar que alguma destas pérolas gráficas ia ver de novo a luz do dia. Há alguns dias, enquanto descia a Rua dos Clérigos, parei instantaneamente em frente a este letreiro. A Alexandra, que me acompanhava (num percurso pela baixa em busca de materiais para a Mariamélia), parou também, pronta a fotografar aquele letreiro que nunca tínhamos visto antes (quem nos conhece, está a par do hábito de sacar da máquina ou do telefone para fotografar pormenores dos sítios que visitamos, mesmo na nossa cidade). Acho que nos perguntamos logo se aquilo sempre esteve ali: não tínhamos memória de alguma vez termos visto aquele letreiro, mesmo no final da Rua dos Clérigos.

Espólio Fotográfico Português — Camisaria A Nova Pernambucana, 1946

Confeitaria dos Clérigos (e Talho dos Clérigos), 2011

Mas só depois de muito rever a imagem que publiquei recentemente no Instagram, é que me apercebi que já “conhecia” aquele letreiro — os S's "metaleiros (como a Rosa tão bem os descreveu num comentário à fotografia) chamaram-me a atenção para um pormenor que eu já havia desenhado antes. Com uma pesquisa pelos meus ficheiros da tese de mestrado facilmente encontrei uma das muita imagens que procurei no site do Espólio Fotográfico Português: foi tirada neste mesmo sítio, mais precisamente uns metros ao lado, onde hoje fica a Confeitaria dos Clérigos, e onde, no ano de 1946 ficava a Camisaria "A Nova Pernambucana" — confirmada a existência pelo meu pai, que se recorda ainda desse estabelecimento de nome exótico (certamente um negócio de um "Brasileiro").

Uma rápida pesquisa confirmou esta tese: o talho, acabado de fechar, retirou o seu letreiro, que cobria um outro, mais antigo, do negócio que o precedera. A legenda que escrevi para a fotografia foi esta: "Por vezes a gentrificacão revela o passado, antes de o destruir • Este letreiro passou a estar visível depois do fecho do talho, cujo letreiro cobria esta pérola dos meados do século passado." 

Hoje, sabemos de antemão que se uma loja como um talho fecha, a poucos metros da Torre dos Clérigos, será certamente para dar lugar a qualquer negócio-para-turista. Será um restaurante, um hotel ou alojamento local, não há grande esperança de uma outra fórmula. Um talho numa zona turística "de alta-pressão" — como é hoje em dia a baixa do Porto — é um alvo a "engolir": basta fazer uma proposta irrecusável por qualquer dono de loja. Aquilo que surpreende é como um vislumbre desse mundo, de há 70 anos, voltou por uns instantes, anónimo, para ser novamente aniquilado.

Na senda daquilo que escrevi há 7 anos atrás:
"Se, por um lado houve uma descrença no valor simbólico do património histórico, por outro, nunca se desenvolveram estratégias em que a identidade nacional e regional fosse comunicada de uma forma nova e inovadora. A recorrência aos mesmo símbolos, a urgência na renovação das imagens, a vulgarização dos ícones regionais promovem um entorpecimento da memória e apenas a mumificação dos artefactos e imagens do passado." *
"(...) como refere David Knight (2011), estas são características que tornam a cidade atractiva e desejável por ter aspectos únicos, diferenciados e aquilo que a protege de se tornar numa cidade igual a tantas outras. As suas características diferenciadas são aquelas que o turismo excessivo pode ameaçar. De acordo com o autor: O Porto está num momento verdadeiramente crucial da sua história porque manteve, de certa forma, muitas coisas que outras cidades destruíram. Não está cheio de centros comerciais e estradas; os pequenos negócios e a pequena indústria ainda estão presentes. O aumento do turismo arrisca estragar isso tudo. Por exemplo, conheço designers gráficos que visitam a cidade pelos sinais incríveis que se encontram nas ruas. Não a vão visitar se o sítio se tornar asséptico, igual a todos os outros.” (Porto24 (2011) “O Porto pode tornar-se uma das cidades mais excitantes da Europa” entrevista de Pedro Rios a David Knight. Porto24, Praça. Acedido em 19-08-2011, aqui.) *

* Filipa Cruz (2011). O potencial da memória na valorização simbólica do comércio do Porto. Universidade de Aveiro. 

Fica desde já prometida mais uma viagem no tempo, por imagens como estas, da pesquisa que fiz há sete anos e que continua, irremediavelmente, guardada na gaveta.

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