Gay marriage

By sufragista - janeiro 09, 2020

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Lembro-me como se fosse hoje. Estava transbordante de felicidade por dentro e ninguém com quem partilhá-la. Trabalhava num meio dominantemente masculino, homofóbico, claramente tóxico. As únicas mulheres com quem trabalhava nessa altura faziam-me perguntas do tipo: "Se tivesses que escolher, preferias ter um filho que fosse gay ou padre?" o que me parecia uma manobra para me encostar à parede e tentar perceber realmente de que lado estava eu.

Nunca estive num meio de trabalho que não fosse tóxico, em maior ou menor grau. Ainda hoje sei de pessoas que trabalham em ambientes com este nível de ignorância e violência. E nos quais é perigosos dizer o que se pensa. 46 anos depois de uma revolução que depôs um regime fascista, 10 anos depois da aprovação da lei do casamento entre pessoas do mesmo sexo. 3 meses depois da extrema-direita chegar ao parlamento, cada vez mais claramente apoiada pelo programa homofóbico, racista e misógino de uma empresa de comunicação social que difunde mentiras diariamente e que continuará a sua campanha de ódio num canal privado de emissão aberta, sempre com a liberdade de expressão na boca.

Há 10 anos não imaginaria uma realidade mais tenebrosa que aquela que vivia nessa altura. Apesar de tudo o que podemos dizer, escrever, publicar, a resposta vem cada vez mais de forma violenta, imprevisível, desproporcionada. O clima de tensão é palpável porque todos estão expostos: os historicamente vulneráveis e os seus carrascos. Este é um dia histórico, se pensarmos no que era Portugal há dez anos atrás, na desproporção e na distância entre os seus representantes e os seus representados. A primeira vez que tive esperança e crença do trabalho feito na AR foi precisamente na aprovação desta lei, fruto do trabalho de muita gente, mas com enorme mérito do Miguel Vale de Almeida.

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