Moda rápida

By sufragista - março 25, 2023


À excepção de algumas peças de roupa interior, não compro fast-fashion há mais de 5 anos. A última peça que comprei na Zara foi no verão de 2017: uma t-shirt em malha tipo turco, branca com riscas vermelhas, que ainda uso. No inverno de 2017 comprei as últimas peças de roupa na H&M, incluindo um casaco de inverno que é o melhor que tenho actualmente. Na Benneton, comprei as últimas peças no ano seguinte. Em 2018 comecei a frequentar a feira de Barcelos, e descobri também as lojas de fábrica na mesma zona, onde se podia aceder a marcas proibitivas, das que têm loja na Avenida da Liberdade, por 10 paus. É claro que não são sempre as mesmas peças que compraria online. Na zona de Barcelos são produzidas essencialmente as malhas de algodão destas marcas nórdicas. E alguma são inacreditáveis. Outras deixam a desejar na qualidade dos tecidos ou dos acabamentos. Há de tudo.

Entre 2018 e 2020, sei que comprei menos peças de roupa do que em cada um dos anos anteriores. Reduzi o meu guarda roupa a quase metade, vendendo ou dando as peças que já não tinham qualidade ou que não me serviam, sobrando assim as peças que haviam sobrevivido ao teste do tempo (e das lavagens). Peças da fast-fashion ou vintage, herdadas ou compradas, eram sem dúvida as melhores do meu guarda-roupa, e lentamente voltaram a ser usadas regularmente.

Lembro-me de um episódio marcante para esta mudança: tinha um evento mais ou menos formal e queria muito usar um vestido bonito. Encomendei 8 (!) vestidos diferentes de um conhecido site francês de fast-fashion porque sabia que os podia experimentar e devolver. Nenhum me ficava bem: os cortes eram tão maus como a qualidade dos tecidos e dos acabamentos. Foi a última encomenda que fiz: devolvi todos. Acabei por comprar um kimono japonês de seda lindíssimo na melhor loja de roupa vintage da cidade e usei-o como um vestido. Continua no meu guarda-roupa como casaco de verão para aquelas ocasiões em que quero ter uma “statement piece”, em linguagem de revista de moda.

As visitas à feira de Barcelos, e mais tarde à feira de Matosinhos, foram alterando a minha visão sobre o consumo têxtil: não apenas de moda, mas também do têxtil-lar. Ter começado a desenvolver produtos têxteis e a trabalhar com costureiras regularmente foi essencial para esta re-aprendizagem, não só do consumo mas do uso da roupa e dos têxteis.

A compulsão para o consumo está sempre lá, ninguém lhe é totalmente imune. Durante algum tempo colecionei tecidos e grandes capas de edredon para fazer outras peças a partir deles, que ficam à espera dentro de caixas, junto com a minha grande herança têxtil: grandes caixas cheias de lençóis antigos, rendas, uma coleção de tecidos e de roupas antigas à espera do meu upycling. Noutra época foram os fios de lã que faziam o meu deleite, e comprava-os sem fim à vista, só pela curiosidade de os trabalhar nas agulhas. Outras tantas caixas de fios acumuladas até hoje.

A relação com os objetos, e neste caso, com os objetos têxteis, pode marcar a nossa relação com o consumo. E por vezes basta alterar o nosso padrão uma vez para ganharmos (ou perdermos) um novo hábito. Tornar-me comerciante, mesmo que uma comerciante digital, também transformou essencialmente a forma como vejo o acto de comprar, através do ato de vender. Porque penso, escrevo e investigo há muito anos sobre comércio, as questões do consumo e da sua relação com a ecologia sempre me interessaram. Ainda acho que estamos longe de colocar as questões certas. Ainda acho que por cá se insiste no sobrevalor da ação individual como uma ideia suprema de escolha, sem nunca reconhecer o imenso privilégio que é poder fazer essas escolhas. O discurso da sustentabilidade ainda é um jogo de uma classe média-alta privilegiada, sem qualquer relação credível com o quotidiano da maioria da população.

Na feira semanal compram todas as pessoas: as com muito e com muito pouco dinheiro, as das margens e as do centro, os turistas, os imigrantes e os filhos dos emigrantes. É o grande melting-pot nacional. Nas feiras semanais podemos aceder a esse sub-mundo que é um lugar temporário onde virtualmente todos se encontram, como uma grande festival de consumidores e vendedores, todos num mesmo plano, sem distinções ou hierarquias muito claras. Na feira os contornos dissipam-se: há feiras como a “da ladra” em que podemos ser vendedor e comprador no mesmo dia. Em que podemos regatear e recusar. E em que nada está totalmente previsto. Parte da magia das feiras jaz na sua imprevisibilidade e na possibilidade da surpresa. Este é o mecanismo de marketing que o comércio formal, dos maiores grupos económicos, coloca em jogo quase diariamente: a ideia de novidade e de exceção. Quando percebemos o quão previsível e planeada é esta estratégia já estamos reféns de vários hábitos de consumo, seja pelos descontos, pelas promoções, ou pelos pontos acumulados “em cartão”. Estamos tão viciados nas ideias de vantagem, mesmo sabendo perfeitamente que, tal como no casino: “the house always wins.” Como dizia a outra: "it's a loosing game".

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